domingo, 10 de dezembro de 2017

Meus braços e pernas feitos de areia
Terrivelmente frágil
Incapaz do próximo passo

Meu coração de espuma
Coração de algodão doce
Comestível
Palpável

Meus ossos de vidro colorido
Feitos de areia colorida
De duna

Minha casa é o sol
Eu não sei falar
Terrivelmente frágil
Incapaz do próximo passo

Sem qualquer fortaleza
Eu toda saliva
Sem saber de nada
Querendo tudo
O mundo entre os dentes
Você na minha boca

Sendo qualquer outra coisa
Que não eu
Que não isso
Que não você
Que não imagem
Que não medo
Que não escuro
Que não alegria que pulula e sendo tão feliz e sendo tudo isso e sendo nada e morrendo e mãe toda ação toda mão todo amor

Eu acredito em tudo
Absolutamente tudo

Comeria seus dedos do pé
Sim
Como um feitiço
Para quem sabe
Eu conseguisse
Me olhar no espelho
Dançar leve
Bater o pé
No chão
No peito
Na mão
De Deus
(Eu creio)
Mas não é possível decifrar
Nem achar saída
Não há nenhuma
Além de que
Eu moro num arco-íris
E acordo chorando
Todos os dias
Já fui orfã
Hoje estou grávida
De todos os males do mundo

domingo, 22 de outubro de 2017

Chupo seus dedos
Um a um
Digo que te amo
Com suas unhas arranhando
Meu céu da boca
A outra mão arranhando
Meu útero
Arranhando meus medos
Arranhando meus olhos

-Você não é óbvia
Você não é nada óbvia

Sua voz invade meus ouvidos
Eu eu tenho que gritar

Ninguém cuida de mim, mãe
Ninguém cuida

Vai chegar o dia
Que a minha loucura vai explodir
Na imagem de uma menina
Roendo as unhas dos pés
Na caricatura de uma velha
Desfigurada e corcunda
Num choro incontrolável
Que vai inundar seus ouvidos
E gritar
Dentro da sua cabeça
Na ação
De comer meus próprios dedos
Numa inteireza absoluta
No erro primordial
De ter nascido

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Ando comendo meu próprio estômago
Num ciclo infinito
Comerei também meus filhos
Nascidos da violência
Comerei meu medo
Que é o medo de todas as mulheres da minha família
E andarei sobre brasas
Sobre espinhos
Sobre vidro
Meu medo é a criança
Que irei abortar
Com minhas mãos

quinta-feira, 13 de julho de 2017

Para você
De quem eu tenho
Que tirar a venda
Você que anda pela rua
Com os olhos tapados
A mão no rosto
Propositalmente
Você a quem eu seguro
Piedosa
Você que não me vê
Que não me preenche de olhar
Você de quem eu guardei
A conta dos olhos
Os testículos
As unhas dos dedos
Piedosa
Juntei tudo
Numa caixa
Cor-de-rosa
De bijuterias
Você criança
Que não ouve
Meu discurso desorganizado
Você que não enxerga
O tamanho da minha
Proximidade

sábado, 8 de julho de 2017

A sua ausência
Ela é
Perfeitamente razoável
A sua ausência
Ela é sensata
Eu diria
A sua ausência
É um piano de calda
Depositado nos meus
Braços
Um plano bem traçado
Um contrato
Registrado em cartório
Três via rubricadas e
Eu sei
Eu assinei
A sua ausência
É uma voz calma
Que me explica
As dificuldades dos dias
As caracteristicas da vida
Adulta
São Paulo
A cidade que eu escolhi
Mas, que você diz
Que eu não conheço
Que eu não sei nada
Que a vida é difícil
Sabe?
A sua ausência me pede
Maturidade
Me pede paciência
Me fala sobre monges, santos
Não comer com as mãos
Não sujar a roupa
Ao comer
Não deixar de
Tomar banho
Mesmo no frio
A sua ausência é um cozimento lento
Muito

Lento
Do meu fígado
Em uma panela
De barro
Eu parada
Em frente ao fogão
Esperando
A sua ausência é uma conjunção astrológica
Uma resposta aos meus erros
(Minha culpa)
Um castigo
Um lembrete
De que não existe
Pai
Uma crueldade
Uma brincadeira
Uma displicência
Inocente
Que só é perdoável
Em pessoas
Muito ocupadas
(A vida é difícil, sabe?)
A sua ausência
Ela é imensa
Maior
Até mesmo
Que uma lembrança
Até mesmo
Que uma imagem
Até mesmo que a sua
Presença
A sua ausência é
Ainda
Veneno
Um alimento da minha loucura
Do meu exagero
Da minha fantasia mais
Descabida
De uma dança
Sobre brasas
Sobre escombros
Sob um dilúvio
Da minha carência
Profunda
Rasgada
Aberta
Burra
A sua ausência
É o oposto exato
Do meu grito
De uma vingança
Desmedida
Abrupta
Absolutamente imatura
A sua ausência
É a lei que eu não obedeço
É o que o meu corpo
Nega
E ele
Está
Aqui