quinta-feira, 9 de outubro de 2014

no fim da tarde
sua ausência
preenche a casa
e eu penso que
estar apaixonada
é ter medo da morte
enquanto espero
alguém chegar

*****

"Aquele que amo
Disse-me
Que precisa de mim.
Por isso
Cuido de mim
Olho meu caminho
E receio ser morta
Por uma só gota de chuva.
(Bretch)"
Eu sempre quis escrever, ele me falou. Eu disse que isso não é sobre escrever, não é nem sobre doar meu próprio sangue, isso é sobre entender. Vim de muitas vidas atrás e tenho carregado cinco gerações de silêncio. São meus agora o silêncio da minha avó, do meu avô que eu não cheguei a conhecer, o silêncio das minhas tias e da mãe da mãe da minha mãe. Eu carrego o silêncio da minha mãe e não sei o que farei com ele. Eu sou a primeira de todas as mulheres da minha família que terá o direito de dizer.

E esse direito, o problema inerente deste direito, é o fato de eu nunca ter usado qualquer palavra. Eu sou filha, antes de tudo, de um redemoinho. Não se engane em pensar que os filhos dos redemoinhos são os mais intensos. Não necessariamente. Não no meu caso. Na minha vida, há a roda e tudo que eu tenho feito é girar. O que eu sei de mim é sobre não permanecer e fugir. Fugir do que não dá para fugir, fugir das pessoas e das coisas, fugir dos meus pensamentos e da ausência de palavras, do modo como o mundo se organiza sem minha permissão. O mundo não precisa de mim, mas eu tampouco posso escapar de estar viva. Nem todos os passos para trás do mundo, nem que eu retrocedesse no tempo, nada disso me faria escapar de estar viva. E estar viva é contemplar o silêncio. Da minha mãe, das minhas tias, do avô que eu não conheci e da mãe da mãe da minha mãe.

A literatura não serve pra nada, então, ele concluiu.

Não serve. Afinal, isso não é sobre escrever, é sobre entender. Não que eu consiga. Entender, quero dizer. Eu consigo, talvez, interromper a roda, olhar para fora. Eu consigo olhar pra você com ternura. Olhar pra você sem que tudo esteja borrado. Eu consigo lembrar de quem eu era em outras vidas e compreender o silêncio da minha mãe, das minhas tias e do avô que eu não conheci. Eu consigo esquecer e eu consigo escapar. Eu consigo escapar e cair. Cair fundo, cair rindo, cair de mãos dadas. Eu consigo dar esse abraço e, quem sabe, quem sabe não estar perdida. Não estar perdida sabendo que isso nunca será sobre entender. Mas será, agora e durante todo o resto sobre
De acordo com os deuses
Tenho pairado sobre o nada
Estou em modo de perseguição
Não há existência além
Desse pequeno universo
De acordo com os deuses
Eu devo perguntar
Se é suficientemente
Grande
A minha parte neste mundo
Devo perguntar se
Me interessa
Ter o pedaço que me cabe
Essa pergunta é, na verdade,
Sobre desistência
Estando eu com os dois pés separados
Continuo desistindo
Desistindo ao acordar
Desistindo ao deitar
Isso não é sobre força
É sobre ter entrado
Há muito tempo
Em um redemoinho
E não saber
Se há qualquer interesse
De sair
Ou se
O mundo continua a girar muito rápido
Mesmo quando você põe os pés no chão
É sempre um começo, ele diria
E nós não estamos indo para lugar nenhum

sexta-feira, 11 de julho de 2014

Andei pensando em
Escrever
Não sei o que
Tenho olhado pra trás
E visto alguém que eu
Não conheço mais
Eu não gostava dela
Mas, agora olho
Com delicada nostalgia
Juntando pedaços
Sempre fazendo isso
Todos os pedaços estão soltos
Como revelar
todas as partes?
Eu tenho tentado
Tenho estado dentro e na rua
Atenta e distraída
Ao mesmo tempo
Como fazer isso?
Conquistar o mundo
E ganhar a casa
Em um mesmo corpo?

Tudo, tudo, estranhamente dentro, a ser descoberto.

sexta-feira, 4 de julho de 2014

essa outra compreensão que eu vou perder ao acordar. porque eu estou em dois lado, disputando comigo mesma. essa compreensão que eu tenho agora, eu queria tanto que ela permanecesse. ou que fosse mais rápido esse processo. eu queria tranquilidade e, ao mesmo tempo, não-tranquilidade. não deve ser pedir demais.
Acontece de eu ter perdido algumas coisas. acontece de eu ter matado algumas partes em prol de viver bem. E eu vivo bem. Quase bem, eu consegui quase tudo, sabe. Acontece que agora eu estou me perguntando o que eu deixei pra trás. E me perguntando se eu não quero isso de volta. Eu acabei de perceber, agora mesmo, que é mais complexo do que eu pensava. A vida. Eu mesma. Todas as coisas que eu matei, de certa forma, para que eu pudesse viver fora de mim, essas coisas pedem pra voltar. Eu quero que elas voltem. Não é isso. Elas estão aqui. E eu não soube, durante esse tempo que elas estavam aqui. E eu queria tê-las de volta, o tempo todo, mas eu não sabia que eram elas. Era aquela fragilidade. Aquilo me dava tanto medo. Eu não conseguia, simplesmente. Eu não conseguia nada. Estava tão perdida, tão entranhada, tudo tão pra dentro, eu queria tanto morrer. E eu fui matando alguma coisa aqui. Isso foi bom. Isso me deu uma possibilidade. Mas, agora, olhando pra trás, eu tô vendo que eu já sabia de tudo. Eu já sei de tudo. Tudo está aqui esperando pra ser descoberto. Que noite!