terça-feira, 30 de maio de 2017

Fracasso diariamente
Na minha luta com o tempo
Fracasso no caminho
Entre o quarto e o banheiro
Minha romaria de auto-perdão
Fracasso em tentar achar alguma coisa
Qualquer coisa
Que eu diga verdadeira
Fracasso em não ser mais que uma criança
Fracasso em tentar mostrar
O lado brilhante da lua
Uma lua do tamanho dos meus ovários
Um filho ao contrário
Me saindo pela boca
Fracasso em não ser mais
Que uma adolescente melacólica
De camiseta preta e pernas finas
Fracasso em não ter nada para dizer
Em ser vazia flutuando no abismo
Fracasso em manter a cama arrumada
E a cabeça no lugar
Fracasso em comer o tempo
De garfo e faca
Fracasso na estranheza
Nas doenças que me mantêm na cama
Em organizar os documentos
Em não ser tão óbvia
Neste poema
Eu ando de mãos dadas com o meu fracasso
E ando chegando em algum lugar
Algum beco escuro
Algum espaço neutro
Sou inteira um erro
Braços, cabeça
Unhas pintadas de vermelho
Sou inteira fracasso
À imagem torta do próprio Criador
Que fracassou ao cuspir o mundo
Sou um erro original
O espaço de um palmo
Entre dois muros

segunda-feira, 22 de maio de 2017

comer-o-tempo
o perdão
dilata
o tempo

(e eu acredito em milagres)

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Eu não sei nada sobre o amor
Além dos poemas que li
Das declarações dos amigos
Sobre como deveria ser
Sobre como eles amam
Tanto e com tanta intensidade
Como se o amor preenchesse
Cada canto escuro de suas vidas
Cada beco
Do inconsciente
Cada comportamento sombrio
Cada obsessão sem sentido
Mas eu
Eu não sei nada sobre o amor
Além dos planos de fuga
Que traço
Enquanto me agarro
Na barra da sua calça
Abraçando suas pernas
O rosto na pélvis
E penso
Em como seria pular as janelas
Dos banheiros
Dos restaurantes que frequentamos
Em como direi
Firmemente
Que não é isso
Não é nada disso
Não era amor
Não assim do jeito que dizem
De verdade
Mas, eu nem acho que eu seja mesmo
Capaz deste amor
Do jeito que eu venho
Me escondendo até então
Fingindo grandes paixões
E arrebatamentos
Corações em chamas
Sozinha no escuro pensando em cair fora
Em escapar pela estrada
Mais próxima
Pra aninhar mais uma vez
A ideia de ser uma outsider
Porque o que eu gosto mesmo
É da ideia de ser uma outsider
Uma praticante do amor livre
Quando na verdade
Eu só quero ser importante
E ter a história mais engraçada
Mais interessante
Para contar

(março/2017)

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Minha mãe é uma árvore de raízes-varizes
Caminha nas minhas veias esta insanidade
Minha mãe é um mar que me afoga
Passei a vida inteira tentando respirar
A lembrança do que me mantem no mundo
Uma mão me segurando
Os erros repetidos outra e outra vez
O poder de uma oração
Ancestral
Uma criança
Perdida no Alecrim
No sol de meio dia
Em Natal

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Coloco você na conta das minhas dores
Junto com minha mãe, meu passado, Natal
Estou aumentando a conta das minhas dores
Estou guardando cada uma no meu estômago, no meu ventre
Tenho fé e deixo doer
Espero
Amputo membros imaginários
Estou só

(São Paulo, 29/12/2015)

Do meu diário, em 16/11/2015


"Esta imagem do giro, do grito vazio é uma constante na minha mente; Girar, girar, girar. Perder o método, recuperar. Uma estaca no peito, o coração na mão. Não há outro modo de falar sobre constância além da imagem de uma estaca no peito e um coração na mão. Nao há nada errado com isso. Minha cabeça esvazia no movimento do trem. Todos os meus sonhos são sozinhos e eu teimo em seguí-los".