domingo, 18 de fevereiro de 2018

A paixão
É um estado de graça
E eu vou construir um altar
Pro teu nome
No céu da minha boca

sábado, 27 de janeiro de 2018

Os homens me assustam
Com suas patas ferozes
Amassando meu rosto
Os homens me assustam
Com seus pênis eretos
Penetrando minha buceta
Como se meu corpo fosse um território
A ser conquistado
Os homens me assustam
Com suas mãos
Que me viram de costas sem que eu peça
A imensidão de um corpo sobre o meu
Segurando com força meus quadris
Os homens me assustam
Mas, devo confessar
Não tenho nada a reclamar
Antes, cadela no cio
Voluntariamente deitada no chão
Esperando a cavalaria passar
Boca aberta e seios
Sem pai
Incapaz de decidir
Se gosto ou não
De ter esse estranho
Na minha cama
Como dividir o colchão
Com um corpo
Tão diferente do meu?
Sendo ele também
Depositário da paixão
Esse balão vibrante
Que se esvazia devagar
E eu torno a encher
Enquanto encho também
Os olhos de lágrimas
Encantada e medrosa
Ao mesmo tempo
Os homens me assustam
Com seus carrinhos de brinquedo
Seus bonecos de luta
Suas cervejas
E também pelo fato de que eu mesma
Gostaria de arrancar cabeças
Num grande guerra viril
Eu mesma gostaria de ter
Um pau gigantesco
E a voracidade
De devorar menininhas
De cavalgar um cavalo veloz e violento
De derrubar a cidade
Subir aos céus
E me encontrar com Deus

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

só quero ir fundo
neste buraco
me desfazer
de todas as células
matar o Eu
me dissolver
virar nada
matéria que descansa
que espera
que chora a sombriedade dos dias
e também suas riquezas
quero eu ser
puro infinito
nada mais que
a percepção de um corpo
dançando
dentro do seu peito
colada
na sua retina
eu só existo
dentro do seu olho
e persisto
na queda
ao mesmo tempo que
toco fogo em mim mesma

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

enfio os dedos na terra
o rosto na areia
meus seios molhados de lama
num qualquer ritual
engulo tudo
e afundo
gritando:
-pai, eu tenho tanta fé
que poderia mesmo
comer Deus
por inteiro
cada estrela
bem no fundo
do meu estômago
e eu entro
no buraco negro
onde tudo é crível
e o amor é
meus olhos explodirem
em luz e sangue
a força de um touro
pescoços cortados de cisnes
tragos os testículos
na boca
e não
voltarei

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

No dia que eu te deixei
Tomei um avião pra Atlântida
Você disse rápido que me amava
Eu subi aos céus apressada
Não te olhei
Não quis
Não precisava
Também não escrevi qualquer carta
Nunca soube
Falar sua língua
Fui embora decidida
Escalei um prédio
Quis tocar o sol
Ganhei a cidade submersa em mil amigos
Todos eles me queriam
Eu esqueci do abraço de despedida
Rejeitei seu conselho
- Cuidado sempre, nós somos tão frágeis
Nem percebi
Meu corpo que ficava cada vez mais branco
Não tem sol em Atlântida
Nem percebi
Quando as linhas das minhas mãos
Se desvaneceram
O absurdo caótico da memória
Que me transformava em peixe
Sereia sufocada
Animal sem mãe
Lembrei que na verdade
Não foi avião
Eu vim andando
Fugindo
Você me pediu pra ficar
A gente morava dentro do sol
Tudo que eu queria era ir embora
Disse não
Nunca
Sou muito diferente de você
E então
Eu caminhei até aqui
Pra fugir das tuas mãos sobre mim
Do teu olhar colado às minhas costas
Sua entrada abrupta no meu quarto
Seu choro de cão
O cordão enfraquecido que nos conectava
Hoje
Em Atlântida
Eu tento lembrar do cheiro da casa e não consigo
Dos móveis brancos
Inventei um novo nome pra mim
Que falasse sobre minha antiga moradia
Escrevo nas paredes histórias sobre o meu passado
Sobre minha casa
E não sei mais
Se a memória me engana
Não sei mais nada sobre você
Esqueci seu nome
Seu rosto
Esqueci porque sentia raiva
Esqueci até mesmo de perguntar
Aos vizinhos
Se você ainda vivia
Quem sabe quanto tempo
Demorariam para descobrir seu corpo
Sozinho e gordo
Limpando os bibelôs da estante
E sua morte me chegaria por carta
Muito depois
Como a notícia da queda de um velho mundo
Que eu não sabia
Me dava de comer
E eu descobriria
Que a Terra não é minha
Nenhum pedaço dela
Não é meu também o corpo
Pedaço de algodão
De espuma
Fumaça que se dissipa
Que sobe aos céus
Sem marca
Sem consciência
Sem órgãos
- Nada é fácil
Você diria
Eu discordo
Não há nada mais fácil
Que o esquecimento
Eu não sou eu
E nego aqui
Todas as minhas identidades
Nunca mais serei amante
Nunca mais serei filha
Não sou sua irmã, sua prima, sobrinha, neta
Nunca mais me verei no seu corpo velho
Porque eu nunca vou envelhecer
Não vejo a importância anunciada da experiência
Serei pra sempre adolescente
Levantando a bandeira
Da minha estupidez
Nunca entenderei as lições
Jamais sairei do meu quarto
Ou deixarei nossa casa
Vivendo eternamente
Entre o desejo
E o ódio
No caminho entre a casa e o colégio
No meu primeiro amor
Não correspondido
Para sempre morando
Na língua do rapaz
Que me disse não

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Se eu pudesse
Virar do avesso
Te abraçaria
Com todos os órgãos expostos
O fígado cantando:
-  não existe passado
Porque há algo que voa
E algo que nega
Também não existe o engano
De nenhuma forma
Existe apenas
Dedos que caminham
Minha mão tateando seu pau
Eu te disse
Não preciso de companhia
Juntei todas as partes
E caí do abismo
Sem notícia
Sem jornal
Sem controle
Cabeça-luz

domingo, 10 de dezembro de 2017

Meus braços e pernas feitos de areia
Terrivelmente frágil
Incapaz do próximo passo

Meu coração de espuma
Coração de algodão doce
Comestível
Palpável

Meus ossos de vidro colorido
Feitos de areia colorida
De duna

Minha casa é o sol
Eu não sei falar
Terrivelmente frágil
Incapaz do próximo passo

Sem qualquer fortaleza
Eu toda saliva
Sem saber de nada
Querendo tudo
O mundo entre os dentes
Você na minha boca

Sendo qualquer outra coisa
Que não eu
Que não isso
Que não você
Que não imagem
Que não medo
Que não escuro
Que não alegria que pulula e sendo tão feliz e sendo tudo isso e sendo nada e morrendo e mãe toda ação toda mão todo amor

Eu acredito em tudo
Absolutamente tudo